Falhas elétricas que aparecem e desaparecem sem explicação são das mais frustrantes para o dono do carro e para o mecânico. Em boa parte dos casos, o culpado é um mau contato no chicote: um terminal oxidado, um fio rompido por dentro do isolamento ou um conector frouxo. A peça cara quase nunca é o problema, mas encontrar o ponto exato da falha exige método.
O que é o chicote elétrico
O chicote é o conjunto de fios, conectores e terminais que leva energia e sinais para todos os componentes do carro: sensores, bicos injetores, bobinas, luzes, painel, vidros, travas e módulos. Os carros atuais têm muitos metros de fiação e dezenas de conectores, divididos em chicotes do motor, do painel, das portas e da traseira.
Além de alimentar os componentes, o chicote leva sinais de baixa tensão, como os dos sensores da injeção. Nesses circuitos, uma pequena resistência extra em um terminal já é suficiente para distorcer a leitura do módulo.
Sintomas de mau contato no chicote
Falhas intermitentes
O componente funciona, para e volta a funcionar. A falha piora em buracos, com o motor quente ou em dias de chuva.
Luzes acendendo sem motivo no painel
Luz da injeção, do ABS ou do airbag que acende e apaga sozinha, com códigos de falha de circuito aberto ou intermitente. Veja como interpretar em luz da injeção acesa.
Motor falhando ou morrendo
Mau contato em conectores de sensores, como o de rotação, ou de bicos e bobinas causa trancos, falhas e até desligamento do motor.
Componentes que funcionam só em certa posição
Vidro que sobe só com a porta entreaberta, lanterna que acende quando se bate no para-choque, som que corta ao virar o volante.
Fusível queimando repetidamente
Quando o isolamento se desgasta e o fio encosta na lataria, há curto para o terra e o fusível queima.
Cheiro de queimado
Terminais com resistência alta aquecem. Conector escurecido ou derretido é sinal de mau contato em circuito de corrente alta.
Onde o mau contato costuma aparecer
| Ponto | Por que falha |
|---|---|
| Passagem para as portas e tampa traseira | Fios dobram a cada abertura e se rompem |
| Conectores no cofre do motor | Calor, umidade e oxidação dos terminais |
| Trechos perto do escapamento | Isolamento ressecado ou derretido |
| Aterramentos na carroceria e no motor | Corrosão e parafusos frouxos |
| Emendas antigas e acessórios instalados | Emendas mal feitas, alarme, som e engates |
| Chicote preso em suportes vibrando | Atrito com a lataria desgasta o isolamento |
Roedores também são uma causa frequente, principalmente em carros que ficam muito tempo parados em garagens próximas a áreas verdes. Eles roem o isolamento de alguns tipos de fiação.
Como o mau contato é localizado
- Leitura com scanner: códigos de circuito aberto, curto ou sinal intermitente indicam qual circuito investigar;
- Inspeção visual: conectores, travas, terminais verdes ou esbranquiçados, fios esmagados ou derretidos;
- Teste de movimento: com o circuito funcionando, o mecânico mexe no chicote trecho por trecho até a falha aparecer;
- Queda de tensão: medir a tensão com o circuito em carga revela resistência em terminais e aterramentos, mesmo quando o teste de continuidade parece normal;
- Esquema elétrico: permite seguir o fio do módulo até o componente sem cortar nada à toa.
Uma armadilha comum: o multímetro mostra continuidade em um fio rompido por dentro, porque um único filamento ainda conduz. Sob carga, porém, esse fio não aguenta a corrente. Por isso o teste de queda de tensão é tão importante.
Como o reparo deve ser feito
- Terminais oxidados: limpeza com produto próprio para contatos elétricos ou troca do terminal;
- Fio rompido: emenda com solda ou conector adequado, isolada com tubo termorretrátil;
- Conector quebrado: substituição do conector, mantendo a posição de cada fio;
- Aterramento ruim: limpeza do ponto de contato na carroceria e reaperto;
- Trecho comprometido: troca do segmento do chicote.
Evite emendas torcidas com fita isolante, cortes desnecessários para "testar" fios e a instalação de acessórios puxando energia de qualquer fio. Essas adaptações são a origem de muitos problemas futuros.
Prevenção
- Não lave o cofre do motor com jato de alta pressão;
- Instale acessórios elétricos com profissionais, usando fusível próprio e relé quando necessário;
- Mantenha os drenos do carro desobstruídos para evitar infiltração;
- Em carros parados por longos períodos, faça inspeções periódicas no cofre do motor.
Quando o chicote precisa ser trocado
Em danos extensos, encontrar um chicote ou conector específico pode ser difícil, principalmente em modelos fora de linha. Chicotes e conectores originais retirados de veículos com procedência legal, inspecionados e vendidos com nota fiscal, resolvem com encaixe de fábrica e evitam emendas em série. Saiba o que conferir em como comprar peças usadas com procedência legal.
Foto de capa: Mkamara9540, via Wikimedia Commons, licença CC BY-SA 4.0.